Economia em Tempo de Guerra
- Jornal de Matosinhos

- 1 de mai. de 2020
- 2 min de leitura
FERNANDO RENTE
Economista

Depois da terrível crise que estamos a viver, que ninguém sabe quando e como vai terminar, o mundo jamais será igual. As notícias aterradoras surgem em catadupa e rapidamente ficam desatualizadas por novos números dos dias seguintes. Os Governos fazem o que podem para controlar e debelar a situação, mas rapidamente se vêm ultrapassados pelo evoluir da situação. O ministro das Finanças fala mesmo em «economia em tempo de guerra». Na verdade, a nossa economia vai conhecer tempos bem difíceis, com o encerramento de empresas e o crescimento em massa do desemprego. Aguentará o país uma situação destas? Em meados de 2019, ouvimos o ministro das finanças dizer que 2020 seria o ano da redução da divida publica, mas pela ocorrência desta crise, tal não será possível e creio mesmo que irá ser aumentada e em muito. Há estudos que apontam para quebras no PIB (Produto Interno Bruto) da ordem dos 10%. Muitos economistas e outros especialistas criticaram a política do anterior governo, por não ter procedido às necessárias reformas estruturais, no sentido de se reduzir a dívida pública, que é, imagine-se, das mais elevadas da Europa e mesmo do mundo. O serviço da divida (juros), pesa mais de sete mil milhões de euros, não obstante a taxa de juro ter vindo a ser bem favorável nos últimos tempos. O valor do serviço da dívida corresponde, grosso modo, ao orçamento do SNS (Serviço Nacional da Saúde). Quando esta crise do Covid19 estiver totalmente debelada, ninguém imaginará o estado de saúde das finanças públicas. Os Governos vão tomando as medidas de apoio possível à economia, mostrando-se sempre insuficientes. O Governo Regional dos Açores foi mais longe e de forma consertada, para preservação do emprego, anunciou apoios a fundo perdido ás micro, pequenas e médias empresas, em função do número de trabalhadores empregados. Sei que o país não é rico, mas provavelmente esta medida terá que ser aplicada às empresas mais afetadas pela atual pandemia. Felizmente, não estamos sozinhos nesta luta, que ameaça provocar mais danos que a crise económica e financeira de 2008/09. Há mesmo quem compare a situação que vamos viver, à grande depressão dos anos 1929/30. Parece-me um exagero, mas tudo dependerá dos meses em que esta pandemia se mantiver. Enquanto a União Europeia continua titubeante a pensar no que deve fazer, países como a China e Cuba decidiram ajudar a Itália, com o envio de material sanitário e médicos para ajudarem no combate à pandemia. O Banco Central Europeu, finalmente, decidiu ajudar com a sua bazuca financeira da ordem dos setecentos e cinquenta mil milhões de euros. Vamos aguardar pela concretização desta ajuda para vermos até que ponto se vai traduzir em verdadeira injeção de fundos à economia real. No nosso caso, a possível ajuda está fortemente condicionada pela situação de endividamento em que o país se encontra. Por norma sou bastante otimista, mas a situação não é nada fácil. A pandemia deverá passar será, penso eu, uma questão de semanas, mas a crise económica ficará e as consequências serão devastadoras, com perdas em toda a linha. Até Mário Centeno viu voar a sua cadeira de sonho. A presidência do Banco de Portugal.








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